“Master of Puppets” – Por trás dos palcos

Quando se trata do conteúdo das letras, o heavy metal é um dos estilos que mostram tamanha profundidade e uma versatilidade inerente. Acredito que o sucesso de muitas bandas, além da parte técnica e da composição musical em si, está também relacionado com as letras, que tomam forma nos cenários do show, dando aos fãs uma experiência impressionante.

Uma das músicas que muito se enquadram neste conceito é a “Master of Puppets”, da banda norte-americana Metallica. 

Os fãs severos da banda bem sabem que muitas das letras das músicas são feitas sob inspiração, dentre outras coisas, na vida e trajetória do vocalista James Hetfield, que teve uma infância e formação familiar muito conturbada.

“Master of Puppets” é uma das músicas mais famosas do Metallica, sendo hoje uma faixa indispensável em todos os seus shows. É a faixa título do terceiro álbum lançada em março de 1986.

Para os fãs que se interessam não só pela energia da música, mas também pela sua profundidade, sabem que a banda, quando escreveu a letra, tratou do tema que tanto cercava o lema e estilo de vida da época. “Master of Puppets” é uma clara alusão ao vício em drogas.

A capa do álbum mostra uma série de túmulos ligados sob cordas, como fantoches, controlados por mãos acima.

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Não foi poupado talento para essa música. A faixa tem 8:36 minutos. Por inteira é bem enérgica, rápida, com riffs e distorção bem pesados. No meio da música há uma interrupção inesperada, seguida por dedilhados limpos na guitarra e solos lentos e melódicos. Um dos fatores, na minha opinião, mais incríveis dessa música.

A letra, assim como a parte musical, não é nada simplório nem previsível. A perspectiva é colocada sob o prisma da droga (mestre), em primeira pessoa.  A letra basicamente é o “mestre” falando com sua presa, ou escravo, viciado e controlado pela droga. Em alguns momentos ocorre um diálogo, como se o dependente falasse com seu “mestre”.

Apesar da música fazer uma clara alusão ao vício em drogas, a perspectiva pode ser entendida através de qualquer tipo de vício, visto que a relação vício e viciado é a mesma.

“Master of Puppets” possui analogias,  descrições e expressões ricas em sua letra. A seguir, sua tradução se inicia da seguinte forma:

“Fim do drama, esfarelando-se

Eu sou sua fonte de auto-destruição

Veias que pulsam com medo

Sugando a mais escura claridade

Comandando a construção da sua morte

 

Experimente-me e você verá

Mais é tudo que você precisa

Você está dedicado a

Como estou matando você

 

Venha rastejando rápido

Obedeça seu mestre

Sua vida queima rápido

Obedeça seu mestre

Mestre”

As primeiras estrofes claramente mostram a droga (fonte de autodestruição) dominando a mente do viciado, tirando toda a sobriedade como é colocado na frase: “Chupando a mais escura clareza” e, resultando no destino de muitos que morrem por ela (“Comandando a sua construção da morte”), por overdose, suicídio ou coisas semelhantes.

O vício em si pode ser identificado como “mestre”, neste a droga é o que comanda o ser.

O refrão é bem marcante na música. Ecoa como uma saudação nazista, um sinal de lealdade, algo absolutamente doutrinário, como o resultado de uma hipnose.

“Mestre das Marionetes

Eu controlo suas cordinhas

Retorcendo sua mente e esmagando seus sonhos

Cego por mim, você não vê nada

Apenas chame meu nome, pois eu o ouvirei gritar

Mestre

Mestre

Apenas chame meu nome, pois eu o ouvirei gritar

Mestre

Mestre”

Os integrantes da banda participam nos backing vocals (“master, master“) e, são gritos clássicos e praticamente obrigatórios para todos os expectadores do show.

As próximas estrofes constroem e descrevem ainda mais o clima de submissão e dependência química.

“Costure o caminho, nunca traia

Linha da morte se tornando clara

Monopólio da dor, miséria ritualística

Corte seu café da manhã num espelho


Experimente-me e você verá

Mais é tudo que você precisa

Você está dedicado a como

Eu estou matando você

 

Venha rastejando rápido

Obedeça seu mestre

Sua vida queima rápido

Obedeça seu mestre

Mestre”

É interessante como eles colocaram a droga como se fosse uma pessoa real, manipulando propositalmente outra pessoa para o comportamento autodestrutivo. Frases de persuasão como “Experimente-me e você verá mais, é tudo que você precisa”, mostram a tentação que a droga representa para dependentes, ainda mais forte em períodos de abstinência.

Após a repetição do refrão, a música é interrompida totalmente. James começa um dedilhado lento e, em seguida, ele e Kirk Hammet (guitarrista solo) fazem um dueto, dando à música uma melodia leve e limpa.

A música reflete muito os sentimentos humanos. “Master of Puppets” quase por inteira é muito rápida, como riffs pesados e muito agitada. Reflete muito bem a mente de um dependente químico sob efeito de drogas. O pensamento rápido e a explosão de substâncias químicas no cérebro tomam uma proporção absurda quando uma pessoa usa drogas. Explosão de dopamina, conexões ainda mais aceleradas entre os neurônios e uma série de fenômenos acontecem, até o efeito e o êxtase passarem.

A música tenta passar para o ouvinte justamente essa energia e a explosão de fenômenos que acontecem na mente de um dependente.

A interrupção inesperada no meio da música pode representar momentos de sobriedade de um dependente, que momentaneamente cai em si e nota que está num cárcere de emoção. A melodia é triste e, para mim, representa a lamentação e o choro de uma vítima.

A estrofe seguinte ocorre sob a perspectiva do dependente, que questiona seu mestre. A música já retoma o ritmo rápido e extremamente acelerado.

“Mestre, mestre, onde estão os sonhos que eu estava atrás?

Mestre, mestre, você prometeu apenas mentiras

Risadas, risadas, tudo que eu ouço e vejo são risadas

Risadas, risadas, rindo do meu choro

Me conserte!”

A estrofe tenta mostrar claramente como a droga representa no primeiro momento um oásis, um refúgio para os problemas de quem a busca. O primeiro efeito é um ápice de prazer e êxtase, seguido por emoções vazias e arrependimento.

 “Mestre, mestre, onde estão os sonhos que eu estava atrás?” , “Mestre, mestre, você prometeu apenas mentiras”. O dependente questiona seu mestre sobre o porquê do seu estado mental totalmente encarcerado. O mestre, como personagem real, agora ri de sua presa.

O padrão de comportamento de um dependente químico, quase sempre, é curar sua tristeza e sentimento ruim com uma nova dose de euforia por meio da droga. É o que eu acredito que a última frase (“Fix me!” Me Conserte) tenta mostrar. Um grito de desespero do dependente desejando a próxima dose de êxtase, para curar seu estado mental.

Kirk Hammet toca o segundo solo da música, rápido e agressivo.

As próximas estrofes novamente remontam as condições de sujeição.

“O inferno vale a pena, habitat natural

Apenas uma rima sem razão

Labirinto sem fim, derivando por vários dias

Agora sua vida está fora de estação

Eu o manterei ocupado

Eu o ajudarei a morrer

Eu correrei até você

Agora eu te controlo também 

Venha rastejando rápido

Obedeça seu mestre

Sua vida queima rápido

Obedeça seu mestre

Mestre”

 

Na quinta frase (“Eu o manterei ocupado”) é clara a condição de escravidão, onde o dependente não consegue mais pensar em nada na vida, além de suprir sua necessidade de se drogar ainda mais, retomando assim o ciclo vicioso e, assumindo total controle sobre sua vítima.

A música finaliza com a repetição do refrão. Na maioria das versões ao vivo, James solta uma risada sarcástica, diabólica e irônica, personificando a figura do “mestre”.

O heavy metal e suas letras têm muito o que nos ensinar. Obviamente quando se trata de sentimentos humanos, algo subjetivo, as letras ficam abertas para diferentes interpretações. Muitas das coisas que explanei aqui são pontos de minha interpretação, mas é claro que há muitas expressões que podem dar margens para outras formas de se interpretar.

Essa é outra das muitas coisas divertidas dentro do heavy metal, ler as letras e fazer sua própria interpretação.

“Master of Puppets” é uma obra excepcional. Claramente passa ao ouvinte uma alusão desfavorável da droga (vício), o lado obscuro e absolutamente irracional que existe entre vício e dependência.

Segue uma das versões mais recentes da banda, gravada em Singapura.

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